Ex-presidentes de seccionais debatem o preço de ocupar o poder na advocacia
Comandar uma seccional da OAB ainda é exceção, não regra, para mulheres — e o Painel 8 colocou essa realidade no centro do debate. Reunindo dois nomes que já estiveram à frente de suas entidades, Marilena Winter (OAB-PR, 2022-2024) e Claudia Prudêncio (OAB-SC, 2022-2024) discutiram, nesta sexta-feira (18/9) na sede da OAB Paraná, em Curitiba, o que muda quando mulheres assumem espaços de decisão institucional, no painel “Mulheres no poder: quando ocupar espaços transforma instituições“, com mediação da jornalista Thays Beleze.
Marilena Winter abriu sua fala com uma homenagem a mulheres que vieram antes dela na luta pela representatividade feminina na advocacia paranaense, entre elas Marta Tonin — que presidiu a primeira Comissão da Mulher Advogada da OAB Paraná, formalizada em 2000 — e Sandra Lia. “Essas mulheres já falavam da nossa luta antes que sequer nós cogitássemos em trazer isso a público”, afirmou, destacando também a atual presidente da Comissão, Aline Andriolli, a vice-presidente da OAB Paraná, Graciela Marins, e a presidente nacional da Comissão da Mulher Advogada, Dione Almeida. Marilena lembrou que, na primeira reunião daquela comissão, as próprias integrantes se perguntavam por que era necessário ter uma comissão da mulher advogada — questionamento que, segundo ela, hoje já não faz sentido diante do que o movimento construiu em quase 24 anos. “A transformação só acontece se você colocar ao dispor do processo a sua inteligência, a sua experiência, a sua vontade de transformar”, disse, defendendo que a mudança não deve ser esperada dos homens, mas construída pelas próprias mulheres.
Em outro momento, Marilena tratou do peso simbólico de ser sempre lembrada como “a primeira” mulher a presidir a OAB Paraná — em 90 anos de história da seccional, ela foi também a primeira mulher a se candidatar ao cargo, eleita com 100% de aproveitamento das candidaturas femininas ao posto. Ela alertou, porém, para o risco de esse discurso do pioneirismo se tornar uma forma de tokenismo: “Se a grande importância de ter uma mulher no poder é ser a primeira, o que vai sobrar para a segunda, para a terceira, para a quarta? Elas vão ser ainda mais desafiadas, porque a primeira já foi”, disse. Para ela, esse enquadramento contribui para um apagamento histórico das mulheres que vieram depois.
Marilena relatou ainda um episódio ocorrido logo após assumir a presidência, durante uma reunião oficial com o governador do Estado: ao chegar ao local acompanhada de seu assessor, o porteiro presumiu que o homem era o presidente da OAB e ela, a acompanhante — até ser corrigido. “O exemplo mostra o quanto é estrutural. A falta de experiência de ter uma mulher naquela função leva as pessoas a não saberem como se comportar”, afirmou, destacando que, apesar de episódios como esse, nunca considerou necessário adaptar seu estilo de liderança a um padrão masculino. “Nós não temos que pensar como os homens. Nós não temos que imaginar que liderança é um padrão de comportamento masculino”, disse, citando o desempenho de líderes mulheres durante a pandemia como exemplo de que o estilo de liderança feminino tem muito a oferecer.
Ela também lembrou que a OAB Nacional está próxima de completar 100 anos sem nunca ter tido uma mulher como presidente, vice-presidente ou mesmo candidata ao cargo — dado que, para ela, evidencia que os obstáculos enfrentados por mulheres na advocacia, embora muitas vezes sutis e não explícitos, continuam presentes de forma estrutural. Encerrou defendendo que o caminho da liderança feminina, apesar de desafiador, não deve ser motivo de desânimo, mas de autoconhecimento: “É fundamental compreender a si mesma e compreender as suas qualidades.”
Claudia Prudêncio, por sua vez, abriu sua fala com uma homenagem à própria Marilena, lembrando que apenas cinco mulheres já presidiram seccionais da OAB no Brasil. “É muito difícil ainda falarem os homens por nós, mas precisam vir 20, 30, 40, 50, 100 mulheres para sentir o que a Marilena, a Cláudia, a Dani, a Gisela e a Patrícia nós passamos”, afirmou. Ela relembrou o estranhamento de entrar, há 28 anos, num sistema OAB catarinense majoritariamente masculino, sem cotas de gênero, e contou que o próprio marido — que não é advogado — costumava ir aos jogos de futebol dos conselheiros com uma camiseta escrita “Claudinha”, só para que ela pudesse depois participar das conversas no bar. Antes de se tornar, em 90 anos de história da entidade, a primeira mulher a presidir a seccional catarinense, Claudia já havia sido a segunda mulher a presidir a Caixa de Assistência dos Advogados de Santa Catarina, 59 anos depois da primeira, Solange Pirajá.
Já na presidência, ela precisou trocar a cadeira do gabinete, dimensionada para antecessores de quase dois metros de altura — “meus pés não alcançavam o chão”, disse — e reformar o banheiro, usado por décadas apenas por homens. Incomodada com ser sempre apresentada como “a primeira mulher”, Claudia destacou que encerrou a gestão com 80% de aprovação, o maior índice em 90 anos da entidade, e contou dois episódios que resumem o tom de sua gestão: uma feijoada institucional que reuniu três mil pessoas, recorde de público, com a contratação, do próprio bolso, da banda de pagode Entre Elas, formada só por mulheres; e uma apresentação em que foi anunciada ao público, por engano, como “doutor Cláudio Prudêncio” — erro que aproveitou no palco para reforçar sua mensagem: “Vocês não estão acostumados com mulheres no comando, né? Pois eu estou no comando e fui eu que trouxe vocês.”
Claudia encerrou sua participação falando sobre o que chamou de “trabalho de apagamento” enfrentado por mulheres em cargos de liderança na advocacia. “Noventa anos os homens tiveram, ninguém apagou o trabalho deles. Nós não estamos acostumados com mulheres no comando”, afirmou, defendendo que o reconhecimento deve vir pela competência, e não por gênero: “Eu não estava lá por ser a primeira mulher. Eu estava lá porque eu era Claudia Prudêncio. Porque a Marilena é a Marilena Winter.”