Entre a necessidade e o desejo: Ana Suy reflete sobre escrita, amor e solidão na FLAP
A tarde de domingo (26/4) na Festa Literária de Ponta Grossa reuniu um auditório lotado no Museu Oscar Niemeyer para ouvir a psicanalista e escritora Ana Suy refletir sobre escrita, amor e solidão. A mesa teve mediação dos psicanalistas Paula Salomão e Fábio Dias, em uma conversa que percorreu tanto os bastidores da criação literária quanto suas implicações subjetivas.
Logo de início, Ana Suy definiu sua relação com a escrita como algo da ordem da necessidade — ainda que a publicação pertença ao campo do desejo. “Escrevo por necessidade, não publico por necessidade”, afirmou, destacando que o impulso de escrever surge como algo incontornável. Ao mesmo tempo, não romantiza o processo: escrever, segundo ela, “bagunça”, “traz questões” e pode até ter algo de masoquista. A disciplina, nesse contexto, aparece mais como resposta a demandas externas — prazos, contratos, o olhar do outro — do que como um hábito espontâneo.
Esse “modo escrita”, como descreveu, também tem custos. Ao mergulhar em um trabalho, sente-se parcialmente afastada da vida, como se a relação com o texto competisse com outras experiências. A maternidade atravessou essa dinâmica de maneira decisiva. Durante a escrita de A gente mira no amor e acerta na solidão, sua filha ainda era pequena, e conciliar os tempos revelou tensões inevitáveis. “Não dá para dizer para uma criança: espere quatro meses”, comentou.
A obra, que se tornou um fenômeno editorial na América Latina, também foi situada por Suy dentro de um contexto histórico específico. Para ela, o sucesso de um livro depende de múltiplos fatores, incluindo o “tempo” — o espírito da época. A pandemia, segundo destacou, produziu uma ruptura coletiva: dissolveu ideais de completude, reconfigurou relações familiares e expôs fragilidades em escala global. “Foi um antes e depois que tocou a vida de todo mundo.”
Ao abordar o impacto de seus livros, Ana Suy evocou Roland Barthes para lembrar que ler é também escrever junto com o autor. Seus leitores encontram nos textos menos respostas prontas e mais provocações que os colocam em questão.
A solidão ocupou lugar central na conversa. Longe de ser tratada como falha, foi apresentada como dimensão necessária da experiência humana. Desenvolver intimidade com ela pode aliviar o peso colocado sobre o outro nas relações. “O encontro com o outro é muito cansativo”, disse, apontando o quanto projetamos nos outros aspectos que nos pertencem.
Essa leitura se articula com sua visão do amor a partir da psicanálise. Em contraste com a ideia comum de completude, o amor está ligado à falta e ao desejo. “O amor é o avesso da exigência”, afirmou, criticando a tendência de transformar relações em cobranças. Em uma imagem marcante, comparou o amor a uma “cesta básica de sentimentos”, na qual o ódio também está incluído — e precisa ser reconhecido para não transbordar em violência.
Ao final, a mesa retornou à psicanálise e à arte como campos que sustentam o vazio e a incerteza. Em vez de oferecer respostas definitivas, ambas permitem habitar a falta — condição essencial tanto para o desejo quanto para o encontro com o outro.
Crédito de imagens: Antônio More, Marcelo Elias e equipe