Ivan Mizanzuk debate narrativa e construção de sentido na mesa “O Direito e o Storytelling”
A Festa Literária da Advocacia Paranaense (Flap), realizada no Museu Oscar Niemeyer, recebeu o pesquisador, escritor e podcaster Ivan Mizanzuk para a mesa “O Direito e o Storytelling”. Realizado na tarde de domingo (26/4), o encontro promoveu uma reflexão sobre a força das narrativas na construção da verdade, da memória e da própria experiência jurídica.
A advogada Marion Bach, uma das curadoras da Flap, fez a mediação da conversa e levantou logo no início o aspecto da grande atenção do público para uma narrativa longa num tempo em que a regra tem sido o baixo índice de atenção em tempos de redes socias e mensagens instantâneas. “Optei pela narrativa longa por entender que era desse modo que a história poderia ser contada”, disse o podcaster.
Mizanzuk apontou que a experiência da escrita acadêmica ajudou muito na produção das histórias que produziu, por levantar perguntas que estabelecem um fio condutor. “Quando se trabalha com um inquérito o risco de fazer uma acusação falsa é enorme, especialmente quando envolve menores e segredo de justiça. Fico permanentemente consultando meus advogados”, contou. “Por isso sempre abro nas produções um espaço para quem se sentir envolvido poder trazer seu relato”.
Escolha de palavras
Marion Bach levantou também um ponto presente no Direito, que também se estrutura a partir da escolha de palavras. “Entendo que a escolha das palavras já indica o seu lado na história. No caso Evandro, eu tenho consciência de que o nome pelo qual o caso já era mais conhecido – bruxas de Guaratuba — tá colocava uma visão. Há muitas vítimas, mas optei pelo título que evidenciou aquela que perdeu a vida”, observou.
Para Mizanzuk, há um desafio enorme em explicar conceitos jurídicos. “No caso Altamira tive que explicar o que era fase de pronúncia, porque isso era muito importante para a compreensão da narrativa”, exemplificou.
Marion Bach quis saber se o podcaster leu todo o processo antes ou se foi mergulhando aos poucos, descobrindo fatos junto com o público. “Eu não tinha noção de como funcionava a dinâmica do processo. Por mais que meu advogado, tenha me dado uma explicação ampla, não entendi tudo. O caso Evandro tinha mais de 30 mil páginas e precisei de ajuda para levantar as informações, fazendo idas e voltas na narrativa. Com Altamira já comecei com uma anotação mais organizada. Na hora de escrever o livro sobre o caso Evandro, já pude contar com a ajuda dos roteiros, em um relato mais linear”, comparou. Os limites legais para o levantamento de informações no âmbito do jornalismo investigativo também foram discutidos na mesa.
Gratidão
No encerramento da mesa, Davi dos Santos Soares foi chamado ao palco. “É um dos inocentes de Guaratuba”, disse Mizankuk, ao apresentá-lo. Davi expressou gratidão ao podcaster. “Se não fosse ele eu ainda estaria sofrendo as consequências de uma mentira. A partir do trabalho desse anjo da guarda, pude comprovar minha inocência. Agradeço também à advogada Isabel Mendes, que muito ajudou. Demorou muito porque a máquina do Estado é mais forte, mas agora está tudo claro”, disse, emocionado.
Promovida pela OAB Paraná, a primeira edição da Flap reuniu milhares de pessoas no MON nos dias 25 e 26 de abril. Registros da festa podem ser acompanhados no perfil oficial do evento no Instagram: @flap_se
Crédito de imagem: Antônio More